Antes de tudo, é preciso colocar os fatos no lugar certo: a China não assumiu o controle do Porto de Santos inteiro. O que houve foi a entrada em operação de um terminal específico, o STS11, arrendado pela Cofco International, braço internacional da estatal chinesa do setor de alimentos. A expansão desse terminal começou em 2023, com operações previstas em fases entre 2025 e 2026, elevando a capacidade própria da empresa no Brasil para cerca de 14 milhões de toneladas.
Ainda assim, o episódio é politicamente explosivo. Não se trata de dizer que o Porto de Santos “foi entregue por completo”, mas sim de reconhecer que uma área estratégica da logística nacional está sendo operada por um grupo estatal estrangeiro, justamente no maior porto da América Latina. A própria Cofco apresentou o projeto como peça central para ampliar sua estrutura de exportação no Brasil, e reportagens internacionais apontaram esse movimento como parte do avanço chinês para garantir rotas de escoamento de alimentos e reduzir dependência de outros mercados.
É aí que entra a crítica ao governo Lula. Em vez de tratar infraestrutura sensível como tema de segurança econômica e soberania nacional, Brasília parece cada vez mais confortável em abrir espaço para o avanço de interesses estrangeiros em setores vitais. O problema não é investimento externo em si. O problema é quando o Brasil deixa de atuar como protagonista e passa a se comportar como mero território de passagem para potências que pensam primeiro em seus próprios interesses.
O governo gosta de vender esse tipo de acordo como sinal de “confiança internacional”, mas parte da população enxerga outra coisa: dependência crescente. Quando um ativo estratégico do tamanho de Santos passa a ter fatias relevantes operadas por estatais estrangeiras, a pergunta sobre soberania deixa de ser exagero e vira debate legítimo. O Brasil exporta riqueza, entrega estrutura e comemora como se isso, por si só, fosse vitória.







