A segurança pública no Rio de Janeiro é frequentemente analisada sob a perspectiva de que o Estado não opera de forma isolada do crime, mas, pelo contrário, estabelece um complexo arranjo de governança com ele. Segundo a especialista Jacqueline Muniz, a dinâmica de segurança no estado é pautada por um modelo onde “o Rio se governa com o crime, não contra ele”.
Essa análise sugere que, em vez de uma ausência estatal, ocorre uma articulação entre Estado, crime e política. Esse ecossistema é mantido, segundo a especialista, pela lógica de que o conflito armado é performado — uma espécie de “guerra para vender a paz” — que viabiliza o pagamento de propinas e o chamado “arrego”, consolidando um sistema de regulação de territórios. Muniz argumenta que esse funcionamento é estruturado em camadas, onde a inteligência policial e as operações são moldadas por interesses que não necessariamente visam o combate direto ao crime organizado, mas sim a manutenção de uma estabilidade que favorece certos grupos e carreiras políticas.
A especialista aponta, ainda, que essa estrutura complexa reflete um cenário onde a criminalidade não atua à margem do poder, mas integra as engrenagens de funcionamento da esfera pública local. A crítica de Muniz desafia a visão tradicional de segurança, propondo que a solução para a violência no Rio de Janeiro exige, fundamentalmente, romper com as conivências que tornam o crime um elemento central na estrutura de governança do estado.







