Em diversas cidades do país, comerciantes passaram a adotar uma prática que parecia superada: aceitar apenas dinheiro em espécie. A mudança ganhou força nas últimas semanas, após o aumento do temor em torno de uma fiscalização mais rigorosa da Receita Federal sobre movimentações financeiras feitas via Pix e cartões. Embora o governo negue qualquer novo imposto, o receio de tributação e de problemas com o Fisco levou muitos lojistas a abandonar os meios eletrônicos de pagamento.
A virada começou com a entrada em vigor de novas diretrizes da Receita Federal, a partir de janeiro de 2025. As regras determinam que instituições financeiras informem transações consideradas elevadas — acima de R$ 5 mil por mês para pessoas físicas e R$ 15 mil para pessoas jurídicas. A medida acendeu o alerta entre pequenos comerciantes, ambulantes e prestadores de serviço, que passaram a temer um monitoramento constante de suas receitas.
Paralelamente, boatos se espalharam rapidamente nas redes sociais apontando uma suposta taxação do Pix. As informações foram classificadas como falsas pelo governo. O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vieram a público afirmar que não existe imposto sobre o Pix e que não há planos para criar uma cobrança específica sobre esse meio de pagamento. Segundo eles, o foco seria exclusivamente o combate a crimes financeiros.
Apesar dos desmentidos oficiais, a insegurança permaneceu. Muitos comerciantes interpretaram o reforço na fiscalização como um risco direto de autuações, multas e cobranças retroativas. Para quem tem parte da renda fora da contabilidade formal, o medo de ser enquadrado por sonegação falou mais alto. A alternativa encontrada foi simples: reduzir rastros digitais e voltar a operar com dinheiro vivo.
A Receita Federal sustenta que o objetivo das novas regras é cruzar dados para identificar grandes movimentações incompatíveis com a renda declarada, mirando esquemas de sonegação, lavagem de dinheiro e fraudes fiscais. O órgão reforça que não há criação de imposto sobre Pix, cartões ou transferências bancárias, mas admite que movimentações suspeitas podem gerar fiscalizações, multas e até processos criminais.
Na prática, porém, o impacto já é sentido no comércio. Consumidores relatam dificuldade para pagar com Pix ou cartão em bares, feiras, salões de beleza e pequenos mercados. Placas com avisos de “aceitamos somente dinheiro” se multiplicam, evidenciando um clima de desconfiança entre o setor informal e o governo federal.
Em resumo, a volta do dinheiro em espécie não ocorre por causa de um imposto criado sobre o Pix, mas como reação ao medo de fiscalização, à desinformação e à percepção de um ambiente tributário cada vez mais rigoroso sob o governo Lula. O resultado é um retrocesso nos meios de pagamento e mais tensão na relação entre pequenos comerciantes e o Estado.






