Uma pesquisa recente do Instituto Datafolha trouxe um dado que chamou atenção no debate político brasileiro: 34% dos eleitores que se declaram petistas afirmam se enxergar como de direita ou centro-direita. Ao mesmo tempo, 14% dos eleitores que se identificam como bolsonaristas dizem ser de esquerda ou centro-esquerda. O resultado escancara uma contradição ideológica e reforça a confusão conceitual que marca o cenário político atual no país.
O levantamento ouviu pouco mais de dois mil eleitores em diferentes cidades brasileiras e cruzou dois critérios distintos: a identificação política com lideranças, como Lula ou Bolsonaro, e o posicionamento ideológico clássico entre esquerda e direita. O choque entre as respostas revela que uma parcela significativa do eleitorado não associa, de forma consistente, partidos e líderes às suas bases ideológicas históricas.
No caso específico dos petistas, o dado de que mais de um terço se declara de direita evidencia um problema ainda mais profundo. O Partido dos Trabalhadores sempre esteve vinculado a pautas típicas da esquerda, como maior presença do Estado na economia, políticas de redistribuição de renda e discursos voltados à luta de classes. Quando eleitores que se dizem petistas afirmam ser de direita, a conclusão mais plausível não é uma mudança ideológica do partido, mas sim que esses eleitores não compreendem claramente o que significam os conceitos de esquerda e direita.
Esse cenário sugere que, para muitos brasileiros, a política deixou de ser guiada por ideias e passou a girar em torno de figuras públicas, slogans e disputas emocionais. A adesão a um líder ou partido ocorre muitas vezes por identificação pessoal, rejeição ao adversário ou benefícios pontuais, e não por alinhamento ideológico consistente.
A pesquisa, portanto, não revela apenas dados curiosos, mas expõe a fragilidade do debate político no Brasil. Quando parte significativa do eleitorado não sabe diferenciar conceitos básicos do espectro político, o resultado é um ambiente onde rótulos perdem o sentido e a discussão pública se torna cada vez mais superficial, baseada em torcida e não em ideias.







