Um caso grave ocorrido em São Paulo levanta questionamentos inevitáveis sobre o peso, o tom e a seletividade da cobertura midiática no Brasil. Uma mulher atropelou o próprio namorado e uma amiga dele, causando a morte dos dois. Mesmo diante da brutalidade do episódio, a repercussão foi relativamente contida quando comparada a outros crimes recentes, e parte da narrativa pública passou a tratar a autora como alguém fragilizada emocionalmente, descrita como “doente”, “triste” ou “em depressão”.
O que chama atenção não é apenas o crime em si, mas a forma como ele vem sendo apresentado. Duas pessoas morreram, entre elas uma mulher, mas o foco de parte da cobertura deslocou-se rapidamente das vítimas para o estado psicológico da agressora, quase como se isso funcionasse como atenuante moral antes mesmo de qualquer julgamento. A violência do ato acaba relativizada por uma tentativa de humanização seletiva, que não costuma ser aplicada com a mesma intensidade em outros casos semelhantes.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a reação ao episódio envolvendo um homem que atropelou e arrastou uma mulher por cerca de um quilômetro, crime que também terminou com a morte da vítima. Nesse caso, a comoção foi imediata e massiva. A mídia dedicou ampla cobertura, o debate público foi inflamado e surgiram discursos exigindo punições exemplares, com menções a penas máximas e até referências extremas como pena de morte em manifestações políticas e comentários ligados ao ambiente do governo Lula, ainda que essa punição não exista no ordenamento jurídico brasileiro.
A diferença de tratamento salta aos olhos. Quando o agressor é homem, a narrativa dominante costuma ser direta: culpabilidade, crueldade, punição severa. Quando a agressora é mulher, mesmo diante de duas mortes, surge rapidamente um esforço para explicar o crime por fatores emocionais, psicológicos ou circunstanciais, como se isso diminuísse a gravidade do que foi feito. As vítimas, nesse processo, acabam ficando em segundo plano.
Isso não significa ignorar questões de saúde mental, que devem sempre ser tratadas com seriedade. O problema está no uso seletivo desse argumento, aplicado de forma desigual conforme o gênero de quem comete o crime. Duas vidas foram interrompidas, famílias foram destruídas, e a sociedade deveria reagir com o mesmo rigor moral e informativo, independentemente de quem esteja no banco dos réus.
A crítica que se impõe é simples e incômoda: a dor das vítimas parece valer mais ou menos dependendo de quem puxou o volante. Enquanto um caso gera indignação nacional e discursos por punições extremas, o outro é suavizado por uma narrativa de sofrimento pessoal da autora. Se a justiça deve ser igual para todos, a forma como a mídia e o debate público tratam crimes graves também deveria ser.







