Nos últimos anos, a venda de conteúdo adulto nas plataformas digitais passou a ser frequentemente apresentada como símbolo de independência feminina. Em discursos nas redes, não faltam frases de efeito sobre autonomia, liberdade e a ideia de que mulheres não precisam de homens para absolutamente nada. Ao mesmo tempo, o próprio modelo de negócio levanta uma contradição difícil de ignorar: quem financia essa independência?
A lógica é simples. Se a principal fonte de renda depende, em grande parte, de consumidores — majoritariamente homens —, o discurso de total autossuficiência entra em choque com a prática. Não se trata de deslegitimar o direito de qualquer pessoa monetizar seu conteúdo, mas de questionar a coerência entre a narrativa e a realidade econômica. Afinal, se não há demanda, não há renda.
O debate, portanto, vai além de moralismo e entra no campo da consistência. Vender conteúdo pode, sim, ser uma escolha individual e até estratégica, mas transformá-la em discurso político enquanto se depende diretamente do público que se diz dispensável expõe uma incoerência evidente. No fim, a pergunta que fica é: trata-se de independência ou apenas de uma nova forma de dependência — agora digitalizada e romantizada?







