O humorista e apresentador Fábio Porchat gerou forte repercussão ao comparar o trabalho realizado por motoristas e entregadores de aplicativos a um sistema semelhante à escravidão. A declaração foi feita em um contexto de crítica às condições enfrentadas por esses trabalhadores, que, segundo ele, cumprem jornadas superiores a 12 horas diárias, sem garantias trabalhistas, com remuneração definida por algoritmos e sujeitos a punições em caso de atrasos.
Porchat afirmou considerar a situação “desesperadora” e questionou o argumento frequentemente usado por defensores do modelo, de que essas pessoas deveriam agradecer por estarem trabalhando e não desempregadas. Para o apresentador, essa justificativa se assemelha a discursos historicamente usados para relativizar práticas de exploração do trabalho, ao normalizar condições precárias sob a lógica da necessidade econômica.
As declarações, no entanto, passaram a ser alvo de críticas após Porchat aparecer como garoto-propaganda da Keeta (Kita), empresa chinesa de delivery que se apresenta como o maior serviço do tipo no mundo e que opera com o mesmo modelo de trabalho por aplicativo. Críticos apontaram contradição entre o discurso adotado anteriormente e a associação comercial com uma plataforma baseada exatamente no sistema que ele havia comparado à escravidão.
A polêmica reacendeu o debate sobre as condições de trabalho na economia de aplicativos, marcada por longas jornadas, ausência de direitos trabalhistas tradicionais e forte dependência de sistemas automatizados para definir ganhos e penalidades. Ao mesmo tempo, a controvérsia colocou Porchat no centro de acusações de hipocrisia, com questionamentos sobre a coerência entre sua crítica pública e suas escolhas profissionais.
Até o momento, o apresentador não se manifestou publicamente para esclarecer ou responder às críticas relacionadas à campanha publicitária. Enquanto isso, o episódio segue sendo usado como exemplo do embate entre discurso social, mercado publicitário e a crescente discussão sobre direitos dos trabalhadores de aplicativos no Brasil.







