A esposa de Guilherme Boulos decidiu entrar oficialmente na disputa eleitoral e anunciou sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados. Até aí, nada de novo na política brasileira. A novidade veio no discurso: ela fez questão de afirmar que não gosta de ser chamada de “esposa do Boulos”, apesar de ser justamente assim que a maior parte do público tomou conhecimento de sua candidatura. Um detalhe curioso, já que o sobrenome e a associação direta com o líder do PSOL seguem sendo o principal cartão de visitas da empreitada.
Com um discurso que mistura militância histórica, causas sociais e afirmações de autonomia política, a pré-candidata tenta se descolar da imagem do marido famoso por supostas invasões — embora essa mesma imagem seja, na prática, o principal fator de visibilidade nacional. A tentativa de se apresentar como figura independente esbarra na realidade óbvia da política: notoriedade não surge do nada, muito menos em um cenário dominado por sobrenomes já conhecidos.
No fim das contas, o episódio ilustra bem uma velha contradição da esquerda identitária: rejeitar rótulos enquanto se beneficia deles. Ao mesmo tempo em que pede para não ser chamada de “esposa do Boulos”, a pré-candidata entra na corrida eleitoral justamente impulsionada por esse vínculo. A política brasileira, mais uma vez, prova que ironia não falta — só coerência.






