A eleição de Gustavo Macedo como vereador pelo PT em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, escancara mais uma contradição incômoda da política brasileira. Condenado por furto de carro quando tinha 18 anos, ele conseguiu chegar ao Legislativo mesmo com um histórico criminal que, em tese, deveria afastar qualquer pretensão a cargo público. Preso em flagrante em 2014 e condenado em 2017 a dois anos de prisão em regime aberto, Macedo se beneficiou da lentidão do sistema judicial e de brechas legais que acabaram neutralizando os efeitos da Lei da Ficha Limpa.
A punição acabou prescrevendo em 2021, o que permitiu que a condenação deixasse de gerar inelegibilidade. Na prática, a lei criada para proteger a moralidade administrativa foi derrotada por um jogo de prazos, recursos e interpretações técnicas. O resultado é um político eleito não por ter um histórico exemplar, mas por ter conseguido escapar das consequências jurídicas de um crime contra o patrimônio, justamente um dos alvos centrais da legislação eleitoral.
O caso levanta questionamentos que vão além do indivíduo. O PT, partido que construiu seu discurso público em torno da ética e da defesa dos mais pobres, aposta politicamente em alguém com um passado que contradiz esses valores. Não se trata de negar o direito à ressocialização, mas de discutir o limite entre recomeço pessoal e ocupação de cargos que exigem confiança pública e exemplo moral.
Quando a política passa a aceitar como normal que condenações sejam superadas apenas por tecnicalidades, o recado enviado ao eleitor é perigoso: cumprir a lei importa menos do que saber contorná-la. Episódios como esse reforçam a sensação de que, no Brasil, a Ficha Limpa é cada vez mais um slogan do que uma barreira real contra práticas e trajetórias que deveriam ficar fora da vida pública.





